Sonhou a terra e nasceram os poetas. Tantos temas de amor! Tantos profetas! Fala-me de amor poeta, hoje há luar. Há pouco o sol nasceu e me acordou, longo vai ser o dia e ainda não passou. Consumo a claridade que me consome. Resisto.
Quinta-feira, 29 de Março de 2007
Mãos

Adaptam-se as mãos

Ao contorno de um corpo,

De um rosto, de uma mão

Ao dorso de um cão

Ao remo de um barco

Ao esticar de um arco.

 

Adaptam-se as mãos

A trepar um muro

A apalpar no escuro

A jogar a sorte.

 

Inadaptadas mãos

Ficam sem força

Inertes, vazias

Quando um desgosto

Entra no corpo

E se refugia na alma.

 

Não seguram

Não mexem

Não arrecadam

Não sentem.

 

Pobres mãos...

                                        Aida Nuno

                                                                                   


sinto-me:

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Segunda-feira, 26 de Março de 2007
Preguiça

 

Placidamente me espreguiço

Bocejo

Tranquilamente projecto no tecto

O pensamento do nada

Um cão ladra lá fora

Um carro passa

Eu fico olhando o tecto.

 

Uma aranha estática

Espera um sobressalto

Para correr, fugir, sobreviver.

 

Podes cair sobre mim

Eu não te mato

Resisto a destruir a tua teia

Reduzir-te a nada

Neste momento não existo.

 

Placidamente olho o tecto

Não ambiciono

Não desejo, não castigo

Tece a tua teia aranha

Eu deixo

Eu não te mato.

 

                                       Aida Nuno

 


sinto-me: com preguiça
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Quarta-feira, 14 de Março de 2007
Ambição

Não quero que os dias sejam iguais

E as horas batam certas

Não quero ritmos constantes

Alucinantes em monotonia.

 

Sintonia do dia-a-dia

Em perfeita harmonia

Estruturada em horas certas

Acabando sempre igual ao fim do dia.

 

Não quero a noite

Com portas fechadas, janelas cerradas

Esperando a monotonia de um outro dia.

 

Quero remoinhos de vento

Que me elevem em espiral, sem um lamento

Lá no alto, entre a terra e o céu

Eu olharei as estradas iguais

As portas fechadas

As janelas cerradas

E o fervilhar de gente

Com as horas certas

E as vidas correctas.

 

Não importa que o vento amaine

A minha alma caia a pique e ferida fique.

 

Vivi a emoção de ser elevada

Vi noites estreladas, resplandecentes

Vi de perto o sol em luz zodiacal

E no final

Em que o sopro da morte é sempre igual

E bate na hora certa

Eu sorrirei porque me elevei

Estive lá no alto entre a terra e o céu

E me senti viva.

 

                                                          Aida Nuno


sinto-me: ambiciosa

publicado por criar e ousar às 19:04
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Domingo, 4 de Março de 2007
A Espera

   

    Há sempre um momento

    Em que a luz define a madrugada

 

    Pálida, muito pálida

    Como a blusa que veste

    Olha a mulher pela janela

    Esperando o sol que aquece

 

    Nada vê, nada sente

    O momento ainda não chegou

    Não, não está doente!

    Nem nada de importante se passou

    É isso, é isso

    Nada de importante se passou

 

    Um ano sobre um ano ela usou

    Foi perdendo o viço

    A côr da blusa não mudou

    O sono, esse não vem, já se cansou

    Pálida, muito pálida

    Esforça o gesto

    O vidro da janela embaciou.

                                                                              Aida Nuno

                                                            


sinto-me: bem escrevendo

publicado por criar e ousar às 18:58
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