Sonhou a terra e nasceram os poetas. Tantos temas de amor! Tantos profetas! Fala-me de amor poeta, hoje há luar. Há pouco o sol nasceu e me acordou, longo vai ser o dia e ainda não passou. Consumo a claridade que me consome. Resisto.

Sexta-feira, 25 de Maio de 2007
Elevação

 

 

  

Chama-me o vento

Chama-me a chuva

Em sons que eu não entendo.

 

 

Hoje o sol nasceu no meu olhar

Brancas são as nuvens viajantes

Arrebatando o meu corpo rumo ao mar.

 

 

Inexistente sou

Voando tão alto!

                                       Aida Nuno

 


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Esta terra onde habitas



Nunca ninguém diga que foi o primeiro

A desbravar a terra de ninguém.

 

Tudo isto é nosso e de ninguém foi

Terra bravia, indomável e astuta

Perece contínuamente o homem

Nada escuta, na ânsia de vencer.

 

Amando, protege a casa onde habita

Domina os ventos, segura as marés

É tudo  e neste todo ele acredita

E, na realidade, nada é...

 

Foge-lhe o tempo, o momento que já era

Desespera, agita o gesto e grita:

Hoje não quero pensar! Quero ser feliz!

Vêem o meu futuro? Nasceu e é Outono!

Quem me dera um dia ver-te em flor!

 

A sua alma está nua e assim respira

Como a esperança de um ribeiro

Esperando chegar, em breve, ao rio, ao mar.

Ser o primeiro...

                                                                     

                                                                                          Aida Nuno


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Ilusão

  

  

 

    Numa jangada feita de madrugadas

    Segura firme o Homem os seus remos          

    Só à deriva com a natureza - o mar -    

    Espera a calma vaga 

    Em vão!

                                          
 

    Sufoca a fome e rema

    Afoga a sede e rema

    Rebelde esquece a solidão.

    Em vão!

    O sal oferta do mar queima

    E o Homem incansável 

    Sem nada vislumbrar além do mar

    Rema e envelhece.


                                                                            

    A terra firme espera-o.

 

                                                             Aida Nuno


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Segunda-feira, 21 de Maio de 2007
Que Futuro?

 

Quebrando as ondas, desmaias em brandura

Intranquila é a nudez com que te vestes

Em praias descrentes de novos horizontes

Diz-me para onde elevas o teu olhar?

Qual a esperança que ainda te impulsiona?

 

Alerta! Alerta, em espanto, eu escuto

As preces, as dores que te acompanham

Como te choro! Oh terra seca e árida!

Esperando, convicta, ver do céu cair a água.

 

Da terra rumo ao mar. Tantas miragens!

Sabem a sal as lágrimas doces de amargura

Continuaremos derrotados pela barbárie

Levantam-se muros indiferentes de loucura.

 

Tempo de milagres e rezas. Crenças!

Continuam cercando a lucidez das almas

Conquistas imutáveis! Quem sangra?

De joelhos, de mãos postas, nesta espera?

 

                                                           Aida Nuno

 


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Sábado, 28 de Abril de 2007
Imagens
O cansaço tomou-me, deslaçou-me
Vou ficar nesta lassidão
De nada ver, de nada querer
Como alguém que desfalece
Cai de borco e fica morto.

Abro os olhos devagar
As paredes do quarto
Ainda lá estão
Com retratos suspensos
Por um fio
Neste vaguear vazio sinto
Recordação a recordação
Que eu retive
Como novelos de aço
Que eu não deslaço
Onde estão agora os bibes?

Fugiram as crianças
Deixaram de brincar
Ficaram as imagens
De momentos, de paisagens.

A Vida sempre a seguir
Indiferente aos meus desejos
Sentir na minha face inocentes beijos
Vou virar a almofada
Estou tão cansada!
Quero dormir.

                                                Aida Nuno

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Quarta-feira, 18 de Abril de 2007
Tão ao de leve...

 

 

    

Deixo-me esvoaçar…Não tenho asas

Ao de leve vou. Tão ao de leve

Mergulho o meu olhar noutro tão breve

Breve é a nuvem que tão leve passa.

  

Onde vais gaivota em voo tão leve?

O céu na noite azul, tem luz vinda da terra

A noite em brancas asas assim me encerra

Quem esvoaça? O grito? A luz? As asas?

 

Dou o grito à noite. Da brisa me alimento

A lágrima essa secou, levou-a o vento

Por mim a gaivota desdobrou as asas.

 

No céu da noite azul eu vou voando.

Uma leve brisa vai por mim passando

Por mim a gaivota desdobrou as asas.

 

 

                                        Aida Nuno 

 


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Sexta-feira, 6 de Abril de 2007
Bagatelas

 

 

 

Não me peças para te ler os meus poemas

Eu quero, por agora, que sejam só meus

Um dia, de tanto os ler, hei-de pensar

Que houve outro alguém que os escreveu.

 

Hei-de juntá-los todos, um a um

Por ordem crescente ou decrescente

Sonhos, fantasias, alegrias, gritos

Depois vou baralhá-los.

 

Mais tarde, lê os meus versos, se quiseres

Tavez encontres um pedacinho de ti

Um engano, uma ilusão, uma alegria

Bagatelas!

 

Outra mulher escreveu os meus poemas

Não fui eu!

Tantas lutas!

Tantas esperanças!

Para quê?

Fecho o livro. Ponho-o de lado.

                                                     Aida Nuno

 

NOTA:  Devido a muitos pedidos feitos, ponho o meu livro à vossa disposição, por uma quantia simbólica,  sendo enviado via CTT, contra cobrança.

Contacto via e-mail.

 


sinto-me: generosa

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Quinta-feira, 29 de Março de 2007
Mãos

Adaptam-se as mãos

Ao contorno de um corpo,

De um rosto, de uma mão

Ao dorso de um cão

Ao remo de um barco

Ao esticar de um arco.

 

Adaptam-se as mãos

A trepar um muro

A apalpar no escuro

A jogar a sorte.

 

Inadaptadas mãos

Ficam sem força

Inertes, vazias

Quando um desgosto

Entra no corpo

E se refugia na alma.

 

Não seguram

Não mexem

Não arrecadam

Não sentem.

 

Pobres mãos...

                                        Aida Nuno

                                                                                   


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Segunda-feira, 26 de Março de 2007
Preguiça

 

Placidamente me espreguiço

Bocejo

Tranquilamente projecto no tecto

O pensamento do nada

Um cão ladra lá fora

Um carro passa

Eu fico olhando o tecto.

 

Uma aranha estática

Espera um sobressalto

Para correr, fugir, sobreviver.

 

Podes cair sobre mim

Eu não te mato

Resisto a destruir a tua teia

Reduzir-te a nada

Neste momento não existo.

 

Placidamente olho o tecto

Não ambiciono

Não desejo, não castigo

Tece a tua teia aranha

Eu deixo

Eu não te mato.

 

                                       Aida Nuno

 


sinto-me: com preguiça
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Quarta-feira, 14 de Março de 2007
Ambição

Não quero que os dias sejam iguais

E as horas batam certas

Não quero ritmos constantes

Alucinantes em monotonia.

 

Sintonia do dia-a-dia

Em perfeita harmonia

Estruturada em horas certas

Acabando sempre igual ao fim do dia.

 

Não quero a noite

Com portas fechadas, janelas cerradas

Esperando a monotonia de um outro dia.

 

Quero remoinhos de vento

Que me elevem em espiral, sem um lamento

Lá no alto, entre a terra e o céu

Eu olharei as estradas iguais

As portas fechadas

As janelas cerradas

E o fervilhar de gente

Com as horas certas

E as vidas correctas.

 

Não importa que o vento amaine

A minha alma caia a pique e ferida fique.

 

Vivi a emoção de ser elevada

Vi noites estreladas, resplandecentes

Vi de perto o sol em luz zodiacal

E no final

Em que o sopro da morte é sempre igual

E bate na hora certa

Eu sorrirei porque me elevei

Estive lá no alto entre a terra e o céu

E me senti viva.

 

                                                          Aida Nuno


sinto-me: ambiciosa

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Domingo, 4 de Março de 2007
A Espera

   

    Há sempre um momento

    Em que a luz define a madrugada

 

    Pálida, muito pálida

    Como a blusa que veste

    Olha a mulher pela janela

    Esperando o sol que aquece

 

    Nada vê, nada sente

    O momento ainda não chegou

    Não, não está doente!

    Nem nada de importante se passou

    É isso, é isso

    Nada de importante se passou

 

    Um ano sobre um ano ela usou

    Foi perdendo o viço

    A côr da blusa não mudou

    O sono, esse não vem, já se cansou

    Pálida, muito pálida

    Esforça o gesto

    O vidro da janela embaciou.

                                                                              Aida Nuno

                                                            


sinto-me: bem escrevendo

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Segunda-feira, 12 de Fevereiro de 2007
A Máscara

 

    A máscara está no rosto

    A imagem está perfeita

    Somos o que não somos

    Não há suspeita.

 

    Somos o que não somos

    A verdade do que somos

    Não tem graça

    Põe a máscara, sorri.

 

   O pensamento é nosso

   Também os sonhos

   Disfarçamos com palavras

   O que nós somos.

 

   Mas, no momento certo

   Quando a madrugada é fria

   E o sol ainda vem longe

   Mostramos o que somos...mas a sós

                                                          

                                                                                      Aida Nuno   


sinto-me: muitas vezes mascarada

publicado por criar e ousar às 15:37
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